Comentário da Lição 2 (3o Trim/2017) por Membros da Classe do Moisés Sanches Júnior

7 de julho de 2017

banner-posts-evangelho-do-reino-1080x675SOB FOGO CERRADO

A maneira como Paulo introduz sua carta aos Gálatas é pouco usual. Tanto que, para alguns estudiosos da Bíblia, sua Carta tem sido comparada à uma espada flamejante empunhada pela mão de um grande espadachim.

Não é sem motivo que Paulo sofresse ataques à seu ministério. Afora o fato de que ele “mudou de lado”, e poderia facilmente ser chamado de “vira casacas” ou de traidor, o cristianismo enfrentava um duro embate, seja entre os hebreus radicais ou tradicionais que desconheciam a messianidade de Cristo, seja com o império vigente por enxergar nos cristãos uma ameaça e insurreição.

Soma-se a isso, a constante ameaça de oportunistas que, observando o sucesso da expansão dos adeptos cristãos, buscavam um lugar ao sol, quer pela crítica à mensagem, quer pela deturpação da mesma.

A principal tensão que percorre a carta aos Gálatas parece repousar sobre o conflito renitente entre a abordagem judaica de tradição e a observância judaica da Lei e a nova e “disruptiva” abordagem da graça proposta por Paulo.

Como sugerem alguns comentaristas, houvesse Paulo perdido o embate com seus opositores, ou tivesse ele arrefecido os ânimos nessa batalha, guardada a intervenção divina, o Evangelho jamais teria alcançado a nossa geração.

Sob este prisma, as palavras do sábio Gamaliel quanto à destinação dessa “nova doutrina cristã” continuam ecoando como sinos insistentes a soar para nosso tempo:  “Dai de mão a estes homens, e deixai-os, porque, se este conselho ou esta obra é de homens, se desfará, mas, se é de Deus, não podereis desfazê-la; para que não aconteça serdes também achados combatendo contra Deus. E concordaram com ele.” Atos 5:38-40

 

MOTIVOS PARA O ATAQUE

 

Dentre as diversas motivações presentes nos tempos de Paulo para o ataque ao apóstolo e sua mensagem, os seguintes pontos destacam-se em sua biografia e em sua escrita de defesa:

  1. A Personalidade de Paulo

É natural imaginarmos que uma pessoa tão aguerrida, combativa, persistente e empreendedora quanto Paulo, deixaria atrás de si um rastro de amor e ódio.

A escolha do apóstolo para esta missão não foi sem motivo. As palavras de Deus sobre o “vaso escolhido”, apontam para as necessidades impostas pela tarefa de levar o evangelho ao mundo.  A missão do “IDE” apresentada aos discípulos por ocasião da ascensão de Cristo, implicaria em ataques que para os quais a assertividade de Paulo se faria necessária.

Porém, a mesma espada espiritual que combate à favor do evangelho, quando não causa arrependimento, suscita a ira, a inveja e a maledicência.

  1. A extensão e o impacto da revolução

Ao olhar para os mapas das viagens de Paulo, é possível ter uma dimensão mais precisa do tamanho da revolução que ele liderou em sua época.

De norte à sul, leste à oeste, o mundo possível de seu tempo foi de algum modo impactado pelos conhecimentos de Paulo.  Seja por sua própria presença em pregação, seja pela disseminação de suas cartas, ou pela visita de seus discípulos, Paulo se tornou uma pessoa conhecida em quase todos os lugares do império romano.

Tal proeminência também consistiu em sua oposição.  E imaginar que boa parte desta “Revolução do Bem” foi liderada de dentro da prisão é algo de fazer inveja às “Revoluções do Mal” lideradas pelas facções do mundo pós-moderno.

  1. A Origem e Legitimidade do Apostolado

Entre os judeus sinceros do cristianismo original, era comum encontrar os que nutrissem dúvidas sobre a legitimidade do apostolado de Paulo. E isto não sem razão, uma vez que o livro de atos no primeiro capítulo (versos 21-22) apresenta claramente sua perspectiva do que seria um apóstolo: “…um dentre estes homens que tem estado conosco todo o tempo em que Jesus Cristo entrava e saía de entre nós, começando desde o batismo de João até o dia que dentre nós foi recebido…” e acrescentam “… que tenha sido feito testemunha conosco da sua ressurreição”.

Definitivamente Paulo não possuía tais credenciais. Não conhecera e nem convivera com Cristo. Não acompanhou seu ministério na Judéia e Galiléia. Não conviveu com os apóstolos. Não assistiu a cruz, a ressurreição e a ascenção.

Em linguagem popular do século vinte, Paulo seria facilmente acusado de “pegar o bonde andando e sentar na janelinha”.

Como forma paralela no combate a Paulo, seguiram o protocolo do sermão da montanha:  “…quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa”. Mateus 5:11.  Sendo-lhes difícil argumentar contra a solidez da mensagem de Paulo, passaram a difamar o autor e pior, a diminuir sua importância ou relevância, como se fora um texto tardio. (Algo não muito distinto disto ocorrera com uma garota de 17/18 anos da região da nova Inglaterra no século 19).

  1. Seu currículo lhe condena

Já não fora ruim o fato de que Paulo não preenchesse os requisitos que os judeus cristãos acreditavam ser necessários para considerar a legitimidade do apostolado, seu currículo pesava mais ainda contra ele.

Até poucos dias atrás estivera Paulo enfronhado na missão de “exterminador do futuro” do cristianismo.

Os discípulos de Jesus, sejam os 11 ou os demais que juntamente com estes acompanharam Seu ministério, ainda guardavam vívida a figura do “Apóstolo Traidor”.  Não seria Paulo uma reedição de Judas? Seria ele um infiltrado? Seria sua aparente conversão uma dissimulação para um golpe definitivo contra o Evangelho de Cristo? Seriam suas “novas doutrinas” uma mudança de estratégia – em lugar do combate e perseguição aos cristãos, Paulo estivesse a tentar esfacelar as crenças vigentes produzindo deturpações dentro do “judaísmo-cristão” abolindo a circuncisão e as tradições “instituídas por Deus para o seu povo”?

Estas e uma infinidade de outras perguntas eram perfeitamente previsíveis naquele contexto.

  1. Sua “nova” Doutrina

A abordagem de Paulo sobre a Justificação pela Fé, sem sombra de dúvidas fez tanto “estrago” e “estardalhaço” em seus dias quanto sua reedição nos dias de Lutero, ou sua revisitação em Minneapolis.

Romper tradições nunca foi fácil, e provavelmente, nunca será.  Principalmente quando se descubra que o que se tinha por verdade era um equívoco parcial ou completo.  A sensação de frustração e culpa paralisam a mudança, e o desconforto e a insegurança do novo, ou do aparentemente novo, pioram as perspectivas de mudança.

Dois mil anos de história não foram suficientes para resolver os conflitos naturais e os artificiais entre: Lei e Graça, Tradição e Princípios, Forma e Essência, Dogmas e Doutrinas, Cultura e Princípios, etc.

 

 

A RESPOSTA

 

Não vou me debruçar sobre as curiosidades do formato e legado estrutural das cartas. A lição de domingo já o fez de forma bastante clara.

Me interessa particularmente, a maneira como Paulo “respondeu” aos motivos do levante contra seu ministério.

 

  • A Personalidade de Paulo

Mesmo que possamos afirmar com toda a propriedade que a velhice e a prisão tenham forjado em Paulo atributos como tolerância, paciência, empatia e outros, a maneira como Paulo responde à oposição ao seu estilo e missão é a mais antiga e surpreendente forma de se provar um projeto:  O LEGADO NO TEMPO.

Pacientemente Paulo esperou a curva do tempo para que seu Legado se provasse legítimo.

Em sua vida demonstrou claramente que não desviaria da missão que lhe fora confiada em Damasco.

No corredor da morte atestou claramente sua percepção de si mesmo:  “Quanto à mim não julgo que o haja alcançado, antes sim, esquecendo-me das coisas que para trás ficam, prossigo para o alvo, o prêmio da soberana vocação…”.

Com sua morte, selou definitivamente suas teses, vida, missão e legado. Tornou-se, como Cristo, pós-morte, num divisor de águas quando o assunto é EVANGELHO.

Por fim, nos ensinou que o Tempo, e só o tempo, como já dizia Salomão, é tão democrático que atinge definitivamente a todos igualmente.  Provou de uma vez por todas que Gamaliel estava certo ao não desejar lutar contra Deus.

 

  • A extensão e o impacto da revolução

Para esta questão a frase do dia é: contra fatos não há argumentos. A história, o tempo e a perpetuidade sustentam as intenções do apóstolo.

A ordem de Cristo conhecida por “Comissão Evangélica” legitima a necessidade de atingir o mundo. A expressão “o Céu é o Limite”, nunca poderiam ser melhor aplicadas do que ao ministério de Paulo.  Não mais que o mundo, e nem menos que ele.

 

  • A Origem e Legitimidade do Apostolado

Aqui repousa a questão mais delicada de seu apostolado.

Não sem motivo, Paulo desloca a atenção da questão das credenciais e transfere ao Seu “Comandante” a responsabilidade de seu chamamento.

Paulo não poderia fazer frente às argumentações baseadas em critérios humanos.  Jesus nunca estabeleceu os critérios para o Apostolado, e tampouco entregou aos discípulos procuração para eleger substituto para Judas.

Paulo se distancia desta discussão e aponta seu ministério para uma eleição sobrenatural. Insta seus oponentes apontando para o fato de que sua vocação ao ministério é proveniente de Deus, e aponta para o fato de que tivera um encontro face a face com Cristo no caminho de Damasco.

Provavelmente sejamos tentados a pensar que Paulo escolheu uma desculpa fácil, afinal de contas, seus oponentes não poderiam chamar Deus à terra para provar se Paulo estava certo ou errado.

Se a resposta de Paulo pode ser tomada em condição de validade, qualquer pessoa em nossos dias poderia se levantar e afirmar ter recebido de Deus diretamente uma missão, uma mensagem, um cargo ou uma visão.

Não podemos nos esquecer, porém, que a validação do chamado de Paulo não se dá pela afirmação de Paulo, mas pela sobrevivência de sua tese frente aos argumentos da Palavra de Deus.

Sua consistência, integridade, convergência, sincronicidade, frutos, história, coerência, concordância e não contradição, somadas as questões metafísicas (dons) consistentes de seu ministério, somados todos, sustentavam sua argumentação.

Aos que não estivessem contentes com isso, restava exclusivamente a indicação de que fossem reclamar com o AUTOR.

Em suma, não concorda comigo tudo bem, não aceita minha demonstração de credenciais, tudo bem também, mas… lembre-se, sua obrigação não é para comigo, mas para com Deus.  Pegue as regras de Deus e me teste. Consulte Deus a meu respeito, e se Deus confirmar que eu fui chamado, tudo certo. Se ele não confirmar que eu venho da parte Dele, eu assumo as consequências diante de Deus.

É nesses termos, de forma atualizada para uma linguagem atual, que Paulo estabelece seus argumentos.

Afinal, o que é mais fácil ou difícil acreditar: que Cristo tenha chamado Saulo de Tarso, ou que tenha ressuscitado dos mortos?

 

  • Seu currículo lhe condena

Talvez a melhor demonstração de transformação que possamos abstrair da vida de Paulo que responda às acusações a seu “currículo” seja a frase:

De perseguidor a perseguido. Prisioneiro do Evangelho de Cristo.

Quem de seus acusadores estaria disposto à abrir mão de tudo e desenvolver um ministério à partir da prisão? Quem estaria disposto aos açoites, doenças, sofrimento e sacrifícios na dimensão do que ele se dispôs?

 

  • Sua “nova” Doutrina

Como a lição desta semana evidencia, a situação na Galácia não estava nada agradável. Paulo rompe com sua escrita usual e parte para o ataque.

Curto e direto, sua ênfase repousa sobre as seguintes questões:

  1. Sua mensagem guarda independência de qualquer outro homem de seu tempo.
  2. Seu ministério não é de segunda mão, fato evidente nos primeiros 2 capítulos de Galatas. Sua mensagem provém diretamente do Cristo, e este, crucificado.
  3. Apesar da independência no que tange a outros homens, sua mensagem repousa sobre as escrituras e é dependente delas
  4. Sua mensagem rompia com as tradições humanas e convergia para a integridade da doutrina de Cristo.
  5. Como judeu estrito, sua separação entre o que fazia parte da cultura nacionalista judaica, daquilo que era a essência do evangelho a ser pregado ao mundo, era uma resposta clara aos que o acusavam de moldar o evangelho de forma inclusiva para angariar adeptos. Paulo evidenciou de forma precisa que por mais cara que para Deus fosse a eleição do povo hebreu no passado, sua rejeição ao messias abriu a porta do evangelho aos que o aceitaram, e portanto, mais importante que qualquer visão nacionalista de salvação, era a percepção de que todo o que confessasse o nome de Cristo seria considerado povo de Deus, sacerdócio real, nação santa ou eleita.
  6. Sua abordagem a respeito da graça fundamentava-se na precisa interpretação e compreensão das promessas feitas à Abraão, e sua tese de Justiça que vem da fé repousava no mais profundo conhecimento dos textos da Torah.
  7. Sua abordagem a respeito da graça salvadora de Cristo não o impedia de ser absolutamente preciso em relação ao papel da Lei de Deus na vida do cristão. Se por um lado somos salvos pela graça, por outra via, não devemos voltar às praticas da velha vida, e portanto, a Lei que é Santa, Justa e Boa, e que vige durante toda a vida do homem, indica a distinção entre aquele que foi salvo pela graça e o que a rejeitou. É pela Lei que temos o pleno conhecimento do pecado, e igualmente pela mesma lei, vem a condenação para o pecado.  Sem lei, morto está o pecado.

Em resumo, sem lei não existe necessidade da graça, pois a graça é justamente a concessão para o que pela lei estava condenado, e pela graça foi redimido.  Lei sem a graça é tirania, e a graça sem lei é Anarquia. E a última coisa que se poderia esperar de um sujeito com o histórico de formação de Paulo, como vimos no comentário anterior, é que Paulo fosse um promotor da desordem.

 

Enfim, somos convidados à percorrer a carta aos membros da Galácia afim de compreender seus erros para não repeti-los, e ao mesmo tempo, incitados a reafirmar seus acertos no mesmo Evangelho que nos une.

Como convite pessoal, eu acrescentaria que, por diversas razões, talvez nossa geração corra o risco de cometer contra a garotinha de 17/18 anos do século 19 acusações e desprezo semelhante.  Pense nisto.

MLSJ/2017