Comentários da Lição 1 (3o Trim/2017) pelos Membros da Classe do Moisés Sanches Júnior

30 de junho de 2017

paulo visão de Jesus

INTRODUÇÃO

Me parece muito interessante a ideia de que terminemos os estudos das cartas de Pedro, e sejamos imediatamente lançados aos escritos de Paulo.

Igualmente intrigante é lembrar que foi Pedro quem nos advertiu de que Paulo era difícil de se compreender.

Mais empolgante é perceber que fomos lançados à carta aos Gálatas, uma das mais simples, mas não menos profunda por isso, cartas do apóstolo.

Com certeza teremos pela frente um agradável trimestre revivendo a essência do evangelho cristão, primeiramente, porque dentre os textos do Novo Testamento, não há elementos tão interessantes quanto os dispostos nas cartas paulinas; em segundo, por que delas advém a essência do debate sobre a Justificação pela Fé, a graça e a salvação; em terceiro, por que nos avizinhamos da comemoração dos 500 anos da Reforma, e nada mais justo que passarmos pelo mês de Outubro deste ano tendo acabado de estudar Paulo, o que poderíamos chamar de o maior dos Reformadores, e principalmente em Gálatas, a inspiração e o precursor de Lutero; e por último, diria até essencial, uma recuperação da mensagem central da reforma, suas intenções e perspectivas, são por demais importantes em um momento em que o protestantismo moderno tende a se desfazer por completo de sua essência e propósito, descontinuando o que Lutero iniciou, justamente no ano em que se deveria exaltar seu legado e ampliar sua pesquisa.

Deste modo, espero que você possa usufruir desta experiência e que o livro de Gálatas lhe sirva de inspiração e principalmente, esperança.

CONHECENDO O AUTOR

Por que é importante entender quem foi Paulo (Saulo de Tarso), e o que há de tão importante e distinto nele que justifique um estudo do autor antes de iniciarmos a carta propriamente dita?

Primeiramente, se é uma carta, há que se entender quem escreve e para quem. Há que ser recuperar o contexto para que se entenda o propósito da mensagem, as entrelinhas da carta, os elementos não ditos por palavras, mas por insinuações.

Paulo se constitui personagem intrigante. Poucos sujeitos tem o privilégio de ter tripla formação familiar: Hebreu de Sangue, Grego de coração e Romano de registro. Por conta disto, um poliglota de origem, e que ainda ampliou seus conhecimentos para outras línguas da época.

Paulo fora educado numa das tradicionais escolas aristotélicas de sua época, aos pés de um grande mestre de nome Gamaliel, que além de profundo conhecedor da cultura hebreia, foi determinante na construção do pensamento lógico e sistêmico de Saulo.

Afora o impacto da cultura helênica e Judaica estrita, Saulo foi impactado pelo conhecimento do Latim, do Direito e da Cultura Romana, e embora não absorvesse as bases do paganismo greco-romano, muito do estilo de pensamento destas culturas se faz presente em seu texto.

Também é possível perceber na forma aguda de seu comportamento, parte do rigor romano, potencializado pelo determinismo e frieza dos fariseus, algo que demorou a se transformar no apóstolo.

Paulo parece ter levado alguns anos para trocar o “facão” pelo “amor”. Tal condição lhe rendeu algumas discussões severas com Pedro, Barnabé e Marcos, por exemplo.

Esse mesmo rigor, provocaram em Paulo uma ira tão profunda ao assistir o julgamento e apedrejamento de Estevão e a arrogância daquele diácono em dizer que vira a Deus e seu Filho, que Saulo se vê na missão de limpar o judaísmo deste cancro crescente chamado cristianismo.

Toda a capacidade de Saulo, somada ao seu espírito aguerrido e intrepidez, constituíam os ingredientes perfeitos para os fariseus e sacerdotes lhe concederem salvo conduto para perseguir e exterminar os cristãos.

Mal podiam imaginar que as mesmas qualidades que serviram interesses egoísticos seriam utilizadas por Deus para a mais ampla e avassaladora expansão que o evangelho já conheceu.

O mundo dos tempos de Paulo vivia a fase mais profícua do Império Romano. Com as áreas da “Europa”, Ásia Menor, Norte da África e “Oriente Médio” sob este mesmo domínio, um cidadão Romano teria livre a tranquila circulação pelo império. A cultura helênica dominante e a diversidade de línguas além do latim, faziam de Paulo o embaixador perfeito para as alegres boas novas do evangelho.

Sua multinacionalidade lhe confiava habilidades e competências para contextualizar a doutrina e a teologia, tornando sua abordagem inteligível à qualquer das culturas dominantes de seu tempo, tornando o apóstolo o missionário perfeito.

Não bastasse isso, as tensões recorrentes entre judeus e gentios eram facilmente quebrantadas na pessoa de Paulo, uma vez que ele era por sangue – um hebreu, por cidadania – um Romano (gentio), por educação – um grego, e por “casta” ou cargo – um notório membro do sinédrio judaico. Se questionado sobre a lei X graça, tinha respostas profundas e elaboradas como profundo conhecedor de ambas, pois foi educado na estrita observância da Torah, e foi salvo no caminho de Damasco pela graça redentora de Cristo.

Se indagado sobre a prática cristã e as tensões constantes entre costumes e princípios, tinha a perfeita noção dos limites entre o que fora estabelecido por Deus para a nação judaica, o que fora acrescido pelas “lendas urbanas” do farisaísmo e aquilo que era completamente supérfluo para um não-judeu.

A CONVERSÃO DE SAULO DE TARSO

Pouca atenção é dada as vezes para o processo da conversão do Apóstolo, mas é enriquecedor prestar atenção aos detalhes.

  1. Somente Paulo ouviu Jesus

  2. Seus soldados viram a cena e ouviram os sons, embora não o tenham compreendido

  3. Viram Saulo cego

  4. Assistiram-no em casa durante seu tempo de angustia

  5. Acompanharam a chegada do servo de Deus – Ananias – e provavelmente acompanharam o batismo de Saulo

  6. Ouviram a história da resistência de Ananias em aceitar encontrar-se com Saulo

  7. Voltaram trazendo as notícias aos sacerdotes e fariseus

Cada um destes elementos poderia gerar conversa para várias horas, mas gostaria de me ater aos elementos mais marcantes.

Primeiro, os discípulos se adiantaram a escolher o substituto de Judas, mas para ser apostolo, era necessário o convite de Jesus. Cristo vem pessoalmente convidar a Paulo, assim como fizera antes com os discípulos. (Aqui se estabelece a autoridade de Paulo, algo bastante enfatizado na introdução da carta aos Gálatas).

As duas frases de Jesus guardam um contrastante dilema que começa a se construir na mente de Saulo: por que me persegues? Duro é para ti recalcitrar contra os Aguilhões!

A primeira frase propõe a Saulo uma conversão de direção. Achava ele que estava perseguindo ao diabo, quando em verdade estava lutando contra seu Salvador e sua maior esperança. É quase impossível para nós hoje avaliarmos o tamanho da culpa que pesou sobre o coração de Paulo ao descobrir isto. Mais difícil ainda é entender como se sentia ao saber que havia prendido ou matado cristãos a quem daqui para a frente, trataria como irmãos. Não é sem motivo que se achasse indigno de seu chamado e se colocasse como prisioneiro do evangelho.

A segunda frase demonstra o poder de influência do Espírito Santo sobre Saulo. Resistir ao evangelho e a Cristo somente lhe causaria dor. Saulo se posicionara do lado errado da luta, e o poder contra o qual estava lutando era infinitamente maior que qualquer esforço seu na direção de extingui-lo. Cristo lhe convida para assumir o lado vitorioso da luta e batalhar pela salvação de outros.

Se os discípulos foram convidados a se tornarem pescadores de homens, Saulo poderia ser comparado à um conjunto de barcos com redes de arrasto. Sua obra e resultado seriam sem precedentes. Igualmente se achava indigno de tamanho privilégio.

Se usualmente costumamos dizer que Deus não escolhe os capacitados mas capacita os escolhidos, tal não se deu com Saulo. Deus escolheu um vaso de excelência e o potencializou ao limite extremo.

Para uma missão extrema, Deus precisava de alguém como Saulo.

Finalmente, um olhar para aqueles 3 dias em Damasco nos permitem imaginar como Saulo reorganizou todo seu arcabouço teórico e teológico, reconstruindo o cenário das profecias de Isaias, Salmos, Jeremias, Daniel, e outros, traçando uma nova linha do tempo que conduzia até o Cristo crucificado.

Igualmente, aqueles 3 dias lhe permitiram reconstruir as práticas e teorias do mundo hebreu do seu tempo, e iniciar um processo de ruptura com sua cultura instalada e imediatamente iniciar o processo de inclusão e agregação do mundo gentílico ao cristianismo.

Dificilmente encontraremos uma mudança tão extrema e profunda em tão curto espaço de tempo em um outro ser humano. Não foi sem dor, trauma e até certo sentimento de remorso que o Saulo migrou para Paulo.

Tal condição nos mostra que não existem limites para a transformação ou conversão. Paulo é a materialização da frase “a minha graça te basta”.

DE PERSEGUIDOR A PERSEGUIDO

Os primeiros dias do Paulo cristão foram a escola preparatória para a dependência de Deus.

Todos os sonhos de pregar o evangelho em Damasco, e conviver com seus recém descobertos novos irmãos, foram frustrados pela necessidade de fugir de seus antigos patrões de perseguição.

Sentiu o Apóstolo o gosto amargo da perda do respeito, credibilidade e atenção de quem nutriu por anos uma posição de destaque.

A escola da humildade era necessária para modificar a fúria do perseguidor em tenacidade, paciência e tolerância do Apóstolo.

Sem perder a intrepidez, era necessário aprender que o tempo de Deus era diferente do dele.

Os anos de aparente desaparecimento do cenário, foram o estágio pela Espanha e talvez Síria para o futuro missionário.

Imaginar que praticamente 2 terços do tempo de missão deste apóstolo fora feito como prisioneiro, e ainda assim alcançar o mundo como ele alcançou, é de fato uma credencial importante para validação da mensagem da carta aos Gálatas.

Mas acima de tudo uma inspiração para quem tiver que viver nos últimos e agudos momentos da história profética.

Igualmente é importante ressaltar que os conflitos mais significativos enfrentados por Paulo, não foram suas batalhas na corte frente a juízes ou reis, mas antes disso, seu enfrentamento às resistências doutrinárias, guerras políticas e de autoridade, falsidade e preconceito, manifestos entre seus próprios irmãos na fé.

A quebra de paradigmas imposta pela abordagem de um evangelho inclusivo que aceitasse o mundo gentílico, fora sem dúvida seu maior desafio.

A aceitação de gentios pela pregação de Filipe e Pedro, embora possam ter amenizado a situação do Ministério de Paulo, parecem nunca ter sido suficientes para eliminar o preconceito dos judeus cristãos de Jerusalém.

Tal condição é, principalmente, uma advertência aos cristãos dos últimos dias, quanto a abrangência da missão de levar o evangelho a toda raça, tribo, língua e nação. Tão certo quanto o fato de que princípios não se negociam, é o fato de que costumes e cultura são ou podem ser variáveis.

Uma igreja que seja fiel à sã doutrina é tão necessária hoje, quanto uma comunidade que entenda seu papel em quebrar seus muros de separação.

Dois mil anos nos separam de Paulo, mas sua experiência e o contexto do evangelho parecem muito similares nos dias atuais.

Nesse espírito, espero que o mergulho na carta aos Gálatas possa ser de valia para nosso preparo para a salvação, e um estímulo a manifestação ampla e irrestrita do Fruto do Espírito.