Comentários da Lição 10 (3o Trim/2017) por Moises Sanches

1 de setembro de 2017

10

AS DUAS ALIANÇAS

 

A lição desta semana nos provoca a enxergarmos a Lei de Deus como uma estrada que nos conduza a fé.  A escolha intencional do título nos provoca a uma percepção da lei que ao mesmo tempo em que nos remete ao propósito da Lei – O pleno conhecimento do pecado e condição humana – também nos direciona a solução desta condição – os méritos de Cristo providos através da cruz de forma graciosa e que podem ser recebidos pelo pecador por meio da fé.

 

Tínhamos 3 objetivos para esta semana:

 

  1. Saber: Comparar e contrastar a antiga e a nova aliança com os filhos de Sara e Agar e a relação deles com Abraão.

 

  1. Sentir: Apreciação, fé e amor a Deus pela libertação do pecado.

 

  1. Fazer: Confiar nas promessas da aliança de Deus.

 

Talvez possamos sintetizar a lição desta semana em 3 perguntas principais:

 

  • Existem mesmo duas Alianças ou são perspectivas diferentes de um mesmo pacto?
  • Qual é a Base da Aliança de Deus – a Lei ou a Graça – e qual o resultado que deve produzir?
  • Se Deus não muda, e nEle não há sombra de variação, teria mudado ele sua Aliança ou o ser humano é quem mudou seu comportamento, levando Deus há uma mudança de metodologia?

 

 

  1. Existem mesmo duas Alianças ou são perspectivas diferentes de um mesmo pacto?

 

Embora essa possa ser uma pergunta capciosa sob a perspectiva bíblica de Antiga e Nova Alianças, que, não raras vezes, aparece em citações do Velho e Novo Testamentos, gostaria de focar no objetivo das diversas vezes em que o termo aparece na Bíblia, não por uma visão puramente exegética ou linguística, mas num sobrevoo menos linear e mais subjetivo.

Começo por resgatar os nomes:  Adão, Noé, Abraão, Jacó, José, Moisés, Povo de Israel, Josué, Sansão, Gideão, Davi, Salomão, João Batista, Jesus, João, Estevão, Paulo, Nós.

 

O que existe em comum em todos estes nomes?

 

Gostaria de sugerir que em todos estes casos existem pelo menos 4 coisas em comum.

 

  1. Todos individualmente, exceto um, necessitavam de Salvação.
  2. Todos individualmente foram convidados a sair de sua zona de conforto baseados em uma promessa e uma crença.
  3. Todos receberam uma missão.
  4. Todos tiveram que obedecer.

 

Minha sugestão é a de que, se todos, exceto Jesus, tinham as mesmas necessidades gerais, ou em resumo, a mesma necessidade – VIDA, por que temos a tendência de olhar o desenho como se Deus houvesse mudado alguma coisa?

Nosso primeiro e comum equívoco reside sobre nossa perspectiva e compreensão do que é novo e do que é antigo.

Nossa tendência é olhar para a frase de Deus – farei nova aliança, darei novo mandamento, etc., como se Deus tivesse mudado.  Deus não muda. Nós mudamos.

Quando nós mudamos, o contrato se quebra. O que Deus faz? Nos procura e faz um novo contrato.

Perceba que, o novo contrato resulta de nossa quebra do antigo, e não da desistência ou culpa de Deus.

A pergunta que normalmente ninguém faz é, Deus modifica as bases do contrato, ou apenas modifica as datas?

Muitos de nós somos tentados a pensar e interpretar Deus a partir de nossas próprias atitudes caso alguém tivesse quebrado o acordo conosco.  Por essa razão, olhamos pra Deus e achamos que ele agiria do mesmo jeito que nós, e rapidamente modificaria as cláusulas do novo contrato, criando cláusulas de barreira ou garantias.

Vamos olhar alguns contratos de Deus:

Adão – Plantou um Jardim, entregou o domínio sobre a Terra, concedeu vida eterna na simbologia da árvore da vida, mas alertou para não comer do fruto pois o resultado disto seria morte.  As bases – Adão precisava acreditar que Deus havia contado a verdade e se acreditasse, precisava viver a verdade que havia crido.  Essa é a ordem do contrato – Crer e Viver.  Existe algo sutil aqui. Não havia nada na árvore da vida em si que fosse capaz de fornecer vida eterna.  Adão e Eva poderiam comer quantos frutos desejassem e isso não lhes daria a vida eterna.  A questão aqui é a promessa.  Deus disse que se eles comessem do fruto Ele daria vida eterna.  Igualmente Deus afirmou que se comessem do outro fruto, morreriam.  Todo o desenho estava fundamentado no que Deus disse, e não no que Eles fariam.  Era preciso acreditar.  Fé era a questão central e promessa era a garantia. Como Adão e Eva eram naturalmente bons e perfeitos, acreditar era algo natural, e descrer exigia esforço.  Talvez por isso, nós, que somos o oposto deles, tenhamos dificuldades em perceber que tanto para eles como para nós, a questão sempre foi acreditar.

O fato é que Adão quebrou o contrato, em lugar de crer, duvidou. Como resultado, em lugar de viver, escolheu morrer.  Essa é a Lei Eterna de Deus. Quem crê nEle, obedece. Quem descrê, desobedece.  O problema é que não necessariamente que obedece a Deus, crê.  Satanás obedece a Deus, mas não crê. Por isso, sua obediência não pode ser imputada como justiça. Essa sutil inversão de ordem dos fatos muda tudo.

Sem fé é impossível agradar a Deus, mesmo sendo o mais perfeito dos obedientes.

A partir do pecado de Adão, toda a humanidade está condenada à mesma sequência geral que apresentamos nos 4 itens em comum.

Em todos os personagens pós pecado se deu sempre o mesmo.  Todas as alianças estão baseadas na mesma sequência. Deus salva, Deus convida com uma promessa, Deus dá uma tarefa, Eu escolho acreditar e obedecer ou duvidar e divergir.

Com o perdão da brincadeira, se você tem dúvida, teste essa sequência com todos os casos.

 

  1. Tudo isso nos leva à segunda pergunta: Qual é a Base da Aliança de Deus – a Lei ou a Graça – e qual o resultado que deve produzir?

 

A grande questão a ser feita é se cada vez que alguém quebrou a aliança, Deus fez outra diferente ou fez a mesma novamente, e novamente e novamente…

 

Quando Adão pecou, a única coisa nova que surgiu na aliança foi a necessidade de alguém pagar a dívida que possibilitaria o perdão para renovação do contrato.  O pecado gerou uma consequência prevista no contrato inicial –  a Morte.  Como mortos não assinam contratos e não podem compactuar alianças, primeiro precisa haver garantia de pagamento da dívida para depois contratar.

Por isso sou tentado a não enxergar duas alianças, mas a mesma. A única diferença que vejo entre a primeira e a segunda, é a garantia do pagamento de uma dívida.

Do mesmo modo, a única diferença entre a aliança do velho testamento e do novo, repousa sobre a promessa.

A promessa do novo é a garantia da vinda do messias.  A promessa do novo é a vinda do Redentor.

A certeza do velho é a de que Adão ficou vivo por que um cordeiro lhe deu as vestes.  A certeza do novo é a de que estamos vivos por que o Cordeiro morreu.

Sempre foi, e sempre será a mesma aliança.

O que ocorreu em todos os casos em que a promessa se desfez foi o fato de que um dos lados quebrou o contrato, e não foi Deus.

Quando Israel recebeu a aliança no Sinai, as estruturas eram exatamente as mesmas – Salvação (Morte dos Primogênitos e Liberdade do Egito), Sair da Zona de Conforto (Sair do Egito e atravessar o Mar), Ser a Nação que mostraria as Bênçãos de Deus ao Mundo (Missão), Viver a Missão (Obedecer).  Para que tudo isso fosse possível, eram necessários os mesmos elementos: 1o. Crer – Umbrais da porta, pés na água, etc., e 2o. Obedecer.

Para que pudesse ser estabelecida a Aliança era necessária uma garantia – a Morte do Cordeiro.  Portanto, a base da aliança do Sinai é e sempre foi a mesma – Fé no Sangue do Cordeiro.  O resultado esperado também é sempre o mesmo – vá e não peque mais.  Sejam meu povo e eu serei o seu Deus.

 

  1. O que nos leva a terceira e última questão: Se Deus não muda, e nEle não há sombra de variação, teria mudado ele sua Aliança ou o ser humano é quem mudou seu comportamento, levando Deus há uma mudança de metodologia?

 

Minha última preocupação aqui repousa sobre uma tendência humana.  Temos uma dificuldade extrema em assumir nossos erros, nossa culpa, nossa responsabilidade.

Sou tentado a acreditar que toda essa tensão gerada entre Lei e Graça, Fé e Obras, e tantos outros binômios que nossa criatividade seja capaz de inventar, são única e exclusivamente maneiras de escondermos nosso real problema – o pecado de que somos responsáveis.

Na realidade imputamos a Deus nossas projeções, transformamos Seus pensamentos e reações nos nossos, e por fim, transformamos a Teologia em “humanologia”.

Por que somos tiranos, fazemos de Deus igualmente tirano.  Por que reagimos aos erros dos outros com prevenções e punições, transferimos tais atitudes à Deus.

Porém quando fazemos isso, nos deparamos com a contradição de que este Deus morreu por todos, sem pedir nada em troca.

Nesse momento somos constrangidos, nos envergonhamos, nos sentimos mal por que percebemos que somos diametralmente opostos a um Deus amoroso.

Como resultado, ou nos rendemos a este amor, reconhecendo nossa completa incapacidade e dependência, ou então, buscamos uma forma de escapar à vergonha e resolver sozinhos a questão.

Cada vez que mudamos nossa forma de agir, responder ou reagir à Deus, Ele pacientemente encontra uma nova maneira de nos abordar, mas sempre com o mesmo objetivo, salvação e reconhecimento de nossas necessidades.

O que percebo são dois tipos de atitudes:

  • Ou o ser humano tenta encontrar alguma forma de fazer coisas para pagar por sua salvação como se deu com Israel que passou a usar seus rituais e sacrifícios como moeda de troca, substituindo a graça por um sistema de indulgências e regras comportamentais (o que em diversas vezes é caracterizado como dar uma ajudinha aos planos de Deus – vide Abraão e Hagar)
  • Ou então o ser humano tenta mudar as regras, pois assim, com a ausência das regras ele seria considerado inocente. Em outras palavras, o ser humano desvia o pêndulo do relógio que estava totalmente voltado para um pragmatismo comportamental e troca de favores ou barganha, para o lado oposto, onde Deus é um “sujeito” bonzinho que distribui benesses que que ama tanto ao ser humano que faz vistas grossas aos erros, aliás, pior, Deus extingue todas as regras abrindo os braços a qualquer pessoa, independente do que sejam, creiam ou façam. O mais incrível neste caso, é que os argumentos são os próprios textos da graça de Cristo, mas com uma sutil distorção.

 

Este é exatamente o problema com o texto de Gálatas 4.  Quando Paulo compara a Aliança do Sinai com a Aliança de Cristo, o ponto em debate não é a natureza da aliança, mas a resposta dada pelas pessoas à essa aliança.  Israel respondeu com rituais autossuficientes, substituindo a fé por obras vazias.  Trocou a aliança de fé na promessa de Deus por um jeitinho humano baseado na autossuficiência da carne.   Ao comparar Hagar com Sara, Paulo resgata a atitude de Abraão, e não a postura de Deus.  Deus corrige a autossuficiência humana evidenciando a dependência.

Deus ressalta a promessa em Isaque frente ao caminho inadequado em Ismael.   Com o Sinai é exatamente o mesmo caso.  A autossuficiência (Tudo que o Senhor disse Faremos)  é desmascarada na Cruz (Dependência do pecador da graça salvadora de Cristo).  A questão em debate não é a pureza e legitimidade da Lei de Deus, mas a completa incompetência humana em observá-la enquanto pecador autossuficiente.

Nosso problema é que não queremos reconhecer nossa dependência, e quem nos mostra essa condição é a Lei, pois ela atesta nosso pecado.  Por conseguinte, o que fazemos é destruir a Lei, com uma boa desculpa, a Graça.  Sem a Lei, não nos vemos pecadores, a culpa se esvai, e nos sentimos bem.  O que não nos damos conta é de que ao fazermos isso, anulamos o sacrifício de Cristo, pois, sem Lei, esta morto o pecado, e logo Cristo, morreu em vão.

 

A grande pergunta é, até quando continuaremos culpando o Médico (Deus), o Diagnóstico (a Lei), o Remédio (a Graça) e o Tratamento (Vida de dependência e obediência à Palavra de Deus), e escondendo nossa doença apenas para nos sentirmos bem conosco mesmos, mentindo que não somos doentes?

 

Pense nisto.

MLSJ/2017