Comentários da Lição 11 (3o Trim/2017) por Moises Sanches

8 de setembro de 2017

liberdade

LIBERDADE EM CRISTO

 Em todas as línguas e lugares existe sempre um conjunto pequeno de palavras que são muito difundidas e utilizadas em vários e diferentes círculos de pessoas, mas que na maioria das vezes, são muito mal compreendidas. Entre estas, curiosamente estão as palavras mais importantes da teologia bíblica: Amor, Liberdade, Lei, Gratidão, Graça, Serviço, só pra citar algumas.

Durante esta semana fomos convidados a meditar em uma destas mal compreendidas expressões: Liberdade. Tínhamos 3 objetivos para esta semana:

  1. Saber: Como a verdadeira liberdade em Cristo evita tanto o legalismo quanto a licenciosidade.
  2. Sentir: A alegria inspiradora que a liberdade em Cristo oferece
  3. Fazer: Crescer no serviço de amor que nasce mediante a fé em quem está unido a Cristo.

Todas as vezes em que eu ouço esta palavra, invariavelmente duas coisas me vem à mente. A primeira e mais antiga lembrança, o coro de um hino:

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz.

A segunda, é um conceito do tempo de faculdade, apresentado nas aulas de Filosofia do prof. Gerson Pires:
Liberdade é a capacidade de escolher e executar o bem!

Da primeira e mais antiga lembrança, se você tiver a oportunidade de ler a letra inteira da música, podemos extrair as várias questões que estão ligadas à palavra Liberdade.

Pensar a liberdade sob a perspectiva bíblica, nos remete a perguntar do que estaríamos libertos.  Para este tipo de compreensão há que se observar a que estamos presos.  Não à toa, a primeira referência sobre o resultado do pecado é apontada como – a Morte. Liberdade, é em primeira instância, a garantia de Vida a quem sabe que vai morrer, ou melhor, já está morto e não talvez não saiba.

Tal possibilidade – a Vida – exigiu concessão de vida feita por quem a possui.  Assim como só pode conceder liberdade, aquele que a possui, se dá com a substituição da morte pela vida. O Criador da vida nos concedeu vida, nos renovou vida, nos libertou.

Esta concessão graciosa de Deus, assim como na escravidão usual, exigiu um preço. O dono da morte, não entrega de graça seus escravos. O preço da vida foi o Sangue.  O mais curioso, é que, assim como no mundo dos escravos, nem todos os donos estavam dispostos a libertar seus escravos, mesmo recebendo o preço.  Isto nos remete a guerra, às lutas, as dificuldades que em diversos lugares se viu até que a liberdade fosse plenamente conquistada.

Nosso Libertador batizou com Sangue nossa carta de alforria. Enfrentou o senhor do engenho terrestre para nos fazer cidadãos de Sua Pátria.  Nos concedeu poder para lutar contra as tentativas de nova escravidão, e nos comissionou a ir por toda parte como Mensageiros desta liberdade afim de avisar aos escravos que a liberdade já foi paga.  Esta mensagem é recheada de esperança. Esse sentimento ou percepção de que existe saída para a condição de escravidão um dia encheu nosso coração.  A alegria de ter encontrado e realizado a esperança, pode ser transmitida por quem passou por isto àqueles que ainda estão presos. (Rom. 5:1-5)

Nesta Missão, porém, encontraremos resistência e travaremos batalhas, as vezes tão sangrentas quanto à que nosso Libertador enfrentou.  A grande diferença, é que batalhamos como soldados livres, e não como escravos em busca de libertação.  Nossa luta não é pela nossa liberdade, mas pela liberdade de outros.  Isso faz toda a diferença, pois, apesar das lutas, como somos livres, temos paz.

Esta sutil, mas fundamental diferença é que não fora compreendida pelos membros da Galácia.  Em lugar de lutar como soldados livres pela liberdade de outros, estavam presos à uma luta insana por sua própria liberdade.  Aqui reside a grande diferença entre o cristianismo e o paganismo.  Enquanto no modelo pagão a liberdade é paga pelo sujeito que se auto liberta, no modelo cristão, a liberdade é fruto da graça de alguém que, sendo livre, escolhe se dar como pagamento pela liberdade de outro.

A proposta bíblica é de que somente quem é livre possa ofertar liberdade.  Somente vivos por si mesmo possam ofertar vida.

De maneira magnífica, Deus nos ofertou tudo isto, e por esta razão nos tornamos eternos devedores da graça.

Como vimos em lições anteriores, aqui está o grande problema do pecado.  Ele nos torna orgulhosos e autossuficientes.  Desta forma, não conseguimos aceitar a ideia de que sejamos devedores de alguém.  Não aceitamos o fato de que somos escravos, mesmo sabendo que somos, nos enganamos com discursos vazios ou retóricos de autossuficiência.  Queremos liberdade do nosso jeito, com nossas forças, por mérito pessoal.  Queremos somar crédito com Deus para que Ele nos deva, e assim, desgraçadamente permanecemos presos em nossa triste condição de escravos.

Uma vez que sabemos do que, por quem e de que forma fomos libertos, resta-nos perguntar para que fomos libertos.  O que acontece depois que a liberdade é concedida.

Neste momento gostaria de resgatar aquele conceito das aulas de Filosofia.

“Liberdade é a capacidade de escolher e executar o bem”!

Em primeiro lugar, liberdade não é algo etéreo. Não é uma sensação metafisica ou uma condição mística.  Liberdade é uma capacidade.

É importante que vejamos assim, pois, havíamos perdido esta capacidade. O pecado ao nos fazer escravos, e mortos, nos retirou este poder.  Livre arbítrio é um dom que nos foi outorgado, e o pecado o exterminou.  Somente por ato Divino poderíamos voltar a poder escolher.  Portanto, a primeira coisa que dá sentido à palavra é que agora, libertos da morte, podemos escolher.

Isto responde a primeira questão do “para que” fomos libertos.

Podemos novamente escolher.  Mas isto seria incompleto se permanecesse apenas no campo das ideias, na metafísica, na imaginação etérea.  Então a definição se amplia e diz que não somente recebemos de volta a capacidade de escolher, mas também o poder para executar.

Deus não nos libertou para fins egocêntricos, autofágicos, medíocres ou abúlicos. O estado de anomia não é algo presente no Mundo de Deus.

Deus nos fez seres pensantes, inteligentes, aprendentes, mas, também nos fez seres ativos, relacionais e criativos.

Deus nos fez para ser, mas também para fazer.

Uma coisa curiosa da libertação dos escravos ao redor do mundo é que, não raras vezes, quando escravos eram libertos voluntariamente por seus donos, decidiam servi-los de forma livre.

Este, embora de forma pálida, é o mesmo espírito presente na Liberdade Cristã.  Liberdade é ativa, e a primeira atividade resultante da genuína liberdade é a gratidão prática.  O que era escravo agora serve livremente como gratidão, por amor, por resposta voluntária.

No caso do pecado, diferentemente da escravidão secular, uma vez libertos, desperta-se em nós uma nova vontade – a de seguir e servir nosso Libertador.

O que ocorre, porém, é que alguns se tornam libertos ingratos.  Foram resgatados, libertos sem merecimento, mas, uma vez livres, dão as costas ao Libertador e decidem que querem viver sozinhos, sem amarras, sem regras, sem tutela ou qualquer comando de serviço.

Na realidade, vivem uma pseudoliberdade, pois não se deram conta de que as regras do Libertador são apenas indicativos dos lugares onde as armadilhas do senhor da senzala foram colocadas.

Não se deram conta de que não existe liberdade sem ordem, sem regras, sem leis.

Não perceberam que as maiores artimanhas do senhor do engenho são:

  1. Dizer que o Libertador é tão bonzinho, tão melhor do que ele – senhor do engenho – que permite que eles vivam “absolutamente” independentes, não se preocupa com o que façam, não lhes dá serviço, não pede satisfação, não possui qualquer tipo de limites. Desta visão resulta a licenciosidade ou libertinagem.
  2. Dizer que o Libertador é uma versão tão mais sofisticada e perfeita que o senhor de engenho, que a única forma de viver com ele é se nos esforçarmos até o extremo limite para ser iguais à Ele. O Libertador jamais nos receberia na condição suja e desprovida da senzala. Desta segunda resultam duas possibilidades:  o Legalismo e/ou a desistência.

Por essa razão, o conceito de liberdade plena não pode ser apenas a capacidade de escolher e executar.  Há que se completar o conceito qualificando a escolha. Portanto, fomos libertos para algo maior e melhor do que aquilo que nos escravizava.  Fomos libertos para o Bem com letra maiúscula.

Por isso a definição aponta para a Capacidade – dom de Deus, para o Escolher – livre arbítrio, para o Executar – Missão, e por fim para o objeto ou essência – o BEM, expresso no caráter de Cristo que é a Sua Lei. É para isso que fomos libertos.

Por essa razão é que podemos afirmar que:

  1. Todo verdadeiro discípulo nasce no reino de Deus como Missionário (Missão)
  2. Todo aquele que nasce de novo, nasce em novidade de vida (transformação)
  3. Todo aquele que ama a Deus, guarda os seus mandamentos (gratidão)
  4. Todo aquele que aceita o Libertador, aceita igualmente o Senhor (reconhecimento)
  5. Todo aquele que diz que ama o Libertador, ama também aos que Ele quer libertar.

A grande pergunta desta semana é: Estamos realmente conscientes da aceitação Cristo como nosso Libertador em todas as suas formas – Pai, irmão, Senhor, Rei, Redentor, Deus, Soberano, Poder, Mantenedor, Salvador, Legislador, Mestre, Médico, etc.?  Ou aceitamos de forma seletiva apenas os aspectos que satisfazem nossos próprios interesses?Pense nisto.

MLSJ/2017