Comentários da Lição 5 (4o Trim/2017) por Membros da Classe do EJC

10 de novembro de 2017

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Comentário de Romanos 5 O que a justificação trás A justificação faz diferença. E faz toda a diferença – não somente para onde estamos indo, mas no como vivemos e sentimos em nosso presente, tanto nos bons quanto nos maus momentos. Em Romanos 5, Paulo considera os benefícios trazidos pela justificação no hoje e no agora. Já que fomos justificados (v.1-2) O verso 1 tem uma introdução dupla. “Portanto”, Paulo começa – em outras palavras, esses versos são consequência das verdades que ele já apresentou. “Já que fomos justificados pela fé” – essas consequências são os benefícios que fluem da grande doutrina da justificação pela fé, que Abraão e Davi conheciam e viveram; a que foi eternamente vista e assegurada na cruz. Paulo está dizendo: “à luz de tudo que nós vimos, aqui estão três realidades trazidas pela justificação…” Primeiro, existe a paz com Deus (v. 1). Essa não é a de Deus (Fp 4:7). A paz de Deus é um coração calmo e satisfeito no meio das dificuldades e pressões da vida. A paz de Deus é despreocupação com os cuidados do mundo – ela é subjetiva. Mas a paz com Deus significa que o estado de hostilidade entre Deus e nós agora acabou – ela é objetiva e existe quer eu me sinta feliz e seguro ou não. A “paz com Deus” significa que, até a salvação, havia uma guerra entre Deus e nós. Quando nos rebelamos contra Deus, duas coisas acontecem. A primeira é que quando você peca, você não quebra só a lei dEle, mas você assume o direito ou autoridade de fazê-lo – assumindo o domínio sobre si e sobre o mundo. Mas Deus é o único que possui domínio sobre essas mesmas coisas. Quando dois partidos reclamam controle régio absoluto sobre algo, existe guerra. A segunda coisa é que nossa rebelião significa que Deus tem um problema conosco. Não é só nós que somos hostis a Ele. Paulo já nos disse que a ira de Deus é sobre nós (Rm 1:18). Como vimos em Rm 1, a ira de Deus não é a mesma que a nossa – ela não é vingativa ou revanchista; ela é legítima. Existe uma sentença real, legal, sobre nós. E ela não pode simplesmente ser descartada – o débito não pode ser deixado de lado. É por isso que não podemos simplesmente virar as costas para Deus, como se pudéssemos fazer o necessário para estar em paz com Ele. Precisamos que seja verdadeiro que “fomos reconciliados com Ele … e temos agora recebido a reconciliação” (v.0-10) – a paz com Deus não é algo que nós possamos alcançar por nós mesmos. Segundo, existe acesso à graça na qual permanecemos (v.2a). A palavra grega aqui, prosagoge, tem o sentido de “trazer para perto”, ou “apresentar”. Nós só podemos desenvolver um relacionamento pessoas com um dignitário poderoso se alguém nos apresentar. O acesso à graça significa que recebemos uma posição favorável, da qual podemos desenvolver um relacionamento pessoal. Em Cristo, nós somos levados até a sala do trono e permanecemos lá. Onde quer que estejamos, sempre estaremos na sala do trono celestial. Isso vai além da “paz com Deus”, que significa o fim de qualquer hostilidade. A justificação não é meramente a remoção de um negativo (hostilidade) – ela tem um aspecto positivo: relacionamento. Essa é a amizade com Deus. Pode agora ir até Deus continuamente com nossos pedidos, problemas e fracassos; e Ele nos ouve e se relaciona conosco. Terceiro, existe a esperança da glória de Deus (v. 2b). Essa é a antecipação definitiva do compartilhar da glória futura de Deus. A palavra esperança em português é fraca para transmitir essa ideia. Esperar por algo significa querer algo sem nenhuma certeza da sua concretização. Mas a palavra grega aqui, elpis, retrata uma convicção. A esperança cristã não é só um desejo sem fundamento – é uma certeza que se traduz na espera. A razão desse “benefício” aparecer em terceiro é porque quanto mais experimentamos nossa paz e acesso ao Pai, mais desejosos nos tornamos de vê-lo, face a face. Por si mesmo, “o céu” pode ser uma ideia abstrata e não muito atrativa. Mas se você já provou o “acesso” a Deus e percebe o quão inebriante é ter meras gotas da sua presença em sua língua, você desejará beber direto da fonte. Esse desejo, esse foco, essa certeza alegre a respeito do futuro é chamada de “esperança da glória de Deus”. Perceba que esses três benefícios da justificação são os três tempos da nossa salvação. Em Cristo, fomos libertos do nosso passado (nosso antigo registro de rebelião e pecado é colocado de lado, e temos paz com Deus); somos livres no presente para nos alegrarmos em um relacionamento pessoal com Deus e um dia experimentaremos a liberdade da vida vivida na completa e incrível presença de Deus. A Alegria no Sofrimento (v.2-5) A vida é complexa, apesar desses presentes trazidos pela justificação. Ela envolve dor tanto quanto o prazer. Quando a vida está pra cima, podemos facilmente curtir esses “presentes”. Mas e quando as coisas estão pra baixo, que diferença a paz com Deus, o acesso a Ele e a glória futura fazem? Paulo diz: toda diferença. Nós nos alegramos na nossa esperança da glória de Deus (v.2); mas não só isso, ele continua (v.3): “nós também nos alegramos nos nossos sofrimentos.” De fato, ele diz que nós não só temos essas alegrias, mas elas continuam sendo alegrias no meio da nossa angustia e até mesmo nos ajudam a encontrar alegria em meio à angustia. Note que Paulo não diz que nós nos alegramos pelos nossos sofrimentos, pois isso seria masoquismo. É possível se alegrar pelo sofrimento: algumas pessoas precisam sentir-se punidas a fim de lidar com seus sentimentos de culpa e desvalorização pessoal. Outros se sentem superiores em relação aos que tiveram uma vida fácil, julgando-os superficiais ou ingratos. Também é possível usar o sofrimento como uma obra, como outra forma de justificação pelas obras! Alguns sentem que Deus deve a eles Seu favor e aceitação porque tiveram uma vida difícil. Aqueles que não “processam” seus sofrimentos através do evangelho da graça podem se tornar orgulhosos e se sentirem superiores ou cínicos. Os cristãos, entretanto, se alegram no sofrimento. Isso significa que não há alegria nos problemas em si. Deus odeia a dor e os sofrimentos da vida e nós também deveríamos. Mas, apesar disso, um cristão sabe que o sofrimento terá resultados benéficos. Um cristão não é um estoico1 . Ser cristão também significa poder olhar através do sofrimento, em direção às certezas oferecidas por Deus. Eles descansam no conhecimento de que as dificuldades só aumentarão a apreciação dessas promessas e certezas. 1 Alguém que segue a doutrina grega que aconselha a indiferença e desprezo pelos males físicos e morais, além da insensibilidade perante o apaixonar-se ou afetar-se pelos sentimentos. Quais são os resultados positivos do sofrimento? Lembre-se que Paulo está nos dizendo como o sofrimento afeta alguém que sabe que foi justificado estritamente pela graça. Nesse caso, ele diz que o sofrimento inicia uma reação em cadeia: 1. O sofrimento leva à perseverança (v 3). Essa é uma palavra que indica foco – o sofrimento nos indica a foca naquilo que é realmente importante. Faz-nos lembrar daquilo que é duradouro e nos ajuda a realinhar prioridades, removendo distrações superficiais que nos fazem esquecer daquilo que realmente importa. 2. A perseverança leva ao caráter (v 4). Essa é uma palavra que indica a qualidade de ser confiável por ter passado por um teste. É obtida por ter se cumprido um dever a despeito de tudo, e o resultado é uma estabilidade que só é alcançada pela experiência. Sem o primeiro passo, o segundo não irá acontecer. 3. Tudo isso leva ao crescimento na esperança, que é uma certeza mais forte dos benefícios trazidos pela justificação. O sofrimento remove de nós as fontes rivais de segurança e esperança; outros lugares onde poderíamos buscar nosso senso de que estamos OK e nosso futuro será OK. O sofrimento, no fim das contas, nos leva para o único lugar onde podemos encontrar real esperança e certeza. Aqui está a declaração impressionante de Paulo. Quando ele mostra que o sofrimento inicia uma reação em cadeia que leva à esperança ( que é um dos frutos da justificação), ele está dizendo que os benefícios da justificação são aumentados pelo sofrimento. Em outras palavras, se você encarar a dor com uma compreensão clara da salvação pela graça somente, sua apreciação dessa graça será aprofundada. Por outro lado, se você encarar a dor com uma mentalidade de justificação pelas obras, a dor irá destruir você. Considere como a dor afeta as pessoas que, conscientemente ou não, buscam a salvação por aquilo que fazem ou vivem. Os “autojustificadores” estão sempre inseguros em um nível profundo, porque sabem que não estão vivendo na altura de suas exigências, mas não conseguem admití-lo. Então, quando vem o sofrimento, eles imediatamente processam isso como uma espécie de punição pelos seus pecados. Eles não conseguem ter confiança no amor de Deus (v.5), pois sua crença de que Deus os ama foi colocada sobre uma base inadequada. E assim, a dor os estilhaça, levando-os para longe dEle, em vez de aproximá-los. É quando enfrentamos o vale da morte que descobrimos se estamos realmente confiando e esperando em Deus, ou em nós mesmos. Para Refletir Pensei sobre isso à luz da sua própria experiência. Considere especificamente uma dificuldade pela qual você passou, ou pode estar passando agora mesmo. Pergunte-se: 1. Isso me ajudou a me preocupar com o que realmente importa, ajudando-me a me livrar das coisas dispensáveis da vida? 2. Isso me gerou maturidade; a capacidade e confiança para seguir, sem medo, através da dor? 3. Isso me levou a experimentar de forma mais profunda a presença e o amor de Deus? Se suas respostas foram negativas, analise o porquê. Foi uma falha da sua vontade? Você simplesmente falhou por ter escolhido não passar tempo a sós com Ele em meio a dor, ou por escolher desobedece-lo simplesmente para fugir da dificuldade da situação? Foi uma falha na minha compreensão do evangelho? A dor fez você duvidar do amor de Deus? Isso é uma reação natural, mas a rapidez com que você afastou esse pensamento é uma indicação do quão bem você compreendeu a justificação. Uma Certeza Real Em Romanos 5:5, Paulos antecipa uma pergunta: como você sabe que essa esperança é real? Como você sabe que não é só um desejo de que seja real? Paulo nos mostra que, como vimos através da Biblia, a base dessa certeza possui dois lados: uma é interna e subjetiva, a outra, externa e objetiva. E ambas são necessárias. Primeiro, o verso 5 nos diz que podemos saber que Deus nos ama por causa da experiência do seu amor. “A Esperança não desaponta, porque Deus derramou Seu amor em nossos corações”. Isso vem através do Espírito Santo. Portanto, cada cristão tem certa experiência interna do amor de Deus. A linguagem de Paulo mostra que isso pode ser uma experiência forte, ou também moderada e sutil. Quanto maior sua experiência subjetiva do amor de Deus, maior será sua segurança, sua esperança. Segundo, o verso 6-8 nos diz que podemos saber que Deus nos ama por causa da morte de Cristo. Esse é um fato histórico de que enquanto ainda estávamos perdidos, Jesus morreu por nós (v. 6). O Rei prometido de Deus abriu mão de tudo – sua própria vida – em favor do povo que o rejeitou. Paulo está criando uma argumentação que deveríamos ter gravada de forma clara em nossa mente. Ela se constrói assim: Premissa 1: (verso 7a) – É necessário que uma pessoa ame muito outra pessoa, para que morra para salvá-la. É extremamente raro que alguém morra no lugar de alguém que é justo – embora se essa pessoa for gentil, boa e simpática, isso possa acontecer. Mas mesmo uma pessoa muito amorosa não morreria por uma pessoa má. Por alguém bom, possivelmente, por alguém mau, sem chances. Premissa 2: (verso 8) – Deus, enquanto ainda estávamos desconectados dEle, por causa de nossa maldade e rebelião, escolheu morrer por nós, na pessoa de Seu filho, Jesus Cristo. Conclusão: Portanto, vocês podem¸ objetivamente, ter a certeza, além de toda dúvida, de que Deus os ama – mesmo se seus sentimentos disserem o contrário; mesmo se a aparência das circunstâncias da vida te levarem a duvidar. Você Chega Lá O verso 1 e 2 podem deixar alguém com a seguinte dúvida: Eu sei que tenho amizade e paz com Deus agora, mas como sei que vou chegar lá? Como sei que vou suportar e me manter em sua graça até lá? Nos versos 9-10, Paulo nos assegura de que a obra de Cristo por nossa salvação não só nos deu a esperança de nosso futuro derradeiro, mas de nosso futuro imediato. Somos assegurados que seremos preservados como “salvos” ao longo de nossas vidas e também no dia do julgamento. O argumento de Paulo é muito forte. Ele entremeia dois argumentos nesses dois versos. Primeiro, se Jesus se manteve naquela cruz e nos salvou quando éramos inimigos de Deus (v10), então, quanto mais agora ele nos manterá salvos, já que nos tornamos amigos ( v.9) ? Se Ele pôde nos salvar quando éramos hostis a Ele, será que Ele falharia, agora que somos amigos? Se Ele não desistiu de você quando você estava em guerra contra Ele, o que você poderia fazer para que Ele desistisse de você agora que você está em paz com Ele? (Note que a ira de Deus no verso 9 se refere a sua ira futura, do dia do julgamento, pois os cristão já tiveram a ira de Deus retirada – veja Rm 3:25-26). Além disso, Jesus alcançou nossa salvação através da sua morte, quanto mais, então, Ele nos manterá salvos estando vivo (v 10b)? É só no final de Rm 8 que Paulo confrontará a questão de “perder a salvação” mais completamente. Mas aqui ele responde a essa questão indiretamente. O Deus que nos abriu o céu, garantirá que nós cheguemos lá. A Alegria da Justificação Esses primeiros dez versos do capítulo 5 nos apresentam uma maravilhosa série de benefícios trazidos pela justificação. E o produto de aceitar esses “presentes” é nos alegrar em Deus, através de Jesus (5:11), porque estamos entre aqueles que receberam a reconciliação com Deus. Alegria é a grande marca de uma pessoa justificada. Ela é única ao Cristianismo, porque não depende de circunstâncias ou de desempenho pessoal. Quando você entrega seu coração a qualquer coisa que não seja Deus, e busca felicidade ali, você se decepcionará. Você irá, cedo ou tarde, perceber que não tão feliz, ou que sua felicidade é instável e insegura e que aquela coisa nunca poderá te fazer completa e permanentemente feliz, e você dirá: nunca farei isso de novo. Nunca mais colocarei meu coração nisso. Mas o que é que você faz então? Ou você procurará por alguma outra coisa e se frustrará novamente, ou desistirá de encontrar a alegria e se tornará desapegado, fechado, frio e vazio. Em absoluto, sem o evangelho, ou nos tornamos hedonistas, adorando os prazeres do mundo, ou estoicos, tornando-nos completamente indiferentes a eles. Mas o evangelho nos dá Deus – e Ele não muda. Como Agostinho, o bispo do 4º século colocou em uma oração: “Tu nos fizestes para Ti, ó Senhor, e nosso coração não descansará enquanto não descansar em Ti”. Nós podemos encontrar a alegria no conhecimento de Deus e ao conhecer a paz e amizade que temos com Ele, mesmo se perdermos coisas que nos são valiosas. Podemos olhar para o futuro com uma certeza férrea e podemos curtir um prenúncio dela, conforme o Espírito Santo trabalha em nós, concedendo-nos esse conhecimento subjetivo do amor de Deus por nós. Então, com nossos corações descansando em Cristo, pois nos alegramos em Deus, através de nosso Senhor Jesus, poderemos aproveitar as coisas boas desse mundo, pois não nos frustraremos com elas nem nos tonaremos indiferentes a elas.